Al-Shuhada Street

Pra explicar o significado dessa rua de Al-Khalil (Hebron), precisamos voltar para 1967, quando Israel invadiu o Sinai no episódio que deu início à guerra dos seis dias contra Egito, Jordânia e Síria. No fim da guerra, além do Sinai, Israel ocupou também as colinas de Golã, Jerusalém Oriental e outras regiões da Cisjordânia, dando então início a uma fuga de palestinos para a Jordânia, aumentando consideravelmente o número de refugiados na região. A ONU exigiu a devolução os territórios ocupados, o que foi negado por Israel, que pedia em troca o reconhecimento do estado de Israel pelos árabes. Com o domínio Israelense na Cisjordânia, iniciou-se a construções de assentamentos em toda a região. Em Al-Khalil (Hebron), o primeiro deles foi o de Kiryat Arba, em 1968.

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Al-Shuhada

Anos mais tarde, em 1993, Yasser Arafat, líder palestino, e Ytzhak Rabin, primeiro ministro israelense, assinaram um acordo de paz. No ano seguinte, um médico da Israeli Defense Force, Baruch Goldenstein, matou 29 palestinos que rezavam na Tumba dos Patriarcas, no centro de Hebron. Ele foi morto por outros palestinos que estavam no local. No ano seguinte Ytzhak Rabin foi morto por um extremista judeu em Tel-Aviv. A partir daí o processo de paz caiu por terra e, Al-Khalil, é a cidade onde isso pode ser mais bem explicado.

A Al-Shuhada, rua de tradicional comércio árabe, foi fechada em 1994 e reaberta em 1997, após o protocolo de Hebron, em que Israel concordava em reabrir a rua para o tráfego. Depois veio a Segunda Intifada, inúmeros outros episódios que culminaram com o fechamento total da rua e, a situação de hoje, é a proibição total da circulação de palestinos. Além de algumas famílias de colonos terem se estabelecido por lá. E eles não são muito amigáveis. Logo quando cheguei em Hebron, andando por uma rua que ficava nos fundos de um prédio ocupado por colonos, era possível ver grades no alto:

“Elas servem pra segurar o lixo”, disse um dos comerciantes. “Eles jogam os restos aqui.”

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Cercas para segurar o lixo

Saindo de lá segui para Al-Shuhada, a rua fantasma. Há um checkpoint logo no início. Estávamos eu, minha namorada Nathalia, uma alemã que trabalhava em uma ONG humanitária em Ramallah e um palestino que nos acompanhava. Logo de cara conversamos com três observadores internacionais que estão em Hebron desde o massacre de 1994. Eles fazem parte da Temporary International Presence in Hebron, chamados pelas autoridades palestina e israelense para ajudar na solução do conflito. Não falaram muita coisa, apenas explicaram que devem ser imparciais. Depois de conversarmos com eles, dois soldados nos pediram passaportes e autorizaram nossa entrada na rua.

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Primeiro checkpoint

Amer, o palestino, seguiu por outro caminho e disse que nos encontrava lá na frente, próximo a uma torre. Um judeu, morador de Kiryat Arba acompanhou a gente. Durante o caminho perguntei a ele o que o fazia morar naquele lugar ocupado, mais parecido com uma prisão, com soldados por todos os lados (Diz-se que há um soldado da IDF para cada colono em Hebron):

“Aqui moro há 30 anos. Meus filhos nasceram aqui. É a nossa terra. Só ocupamos o que é nosso”, disse ele.

“Não é o contrário?”

“Não, há muitos mal-entendidos na história da Palestina”

Fomos parados por guardas:

“O que faz aqui?”

“Sempre quis visitar Hebron”

Ele confere os passaportes, faz uma cara de quem não entende e nos deixa ir. Mais uns metros e somos parados de novo. Dessa vez o senhor fala alguma coisa em hebraico com o soldado e andamos sem precisar mostrar os documentos de novo. Ele depois segue andando na frente e se despede de longe falando:

“Aqui é a torre. Esperem aqui que Amer já deve estar chegando. O caminho dele é mais longo”.

Comecei a olhar em volta e fotografei uma placa em um prédio abandonado. De repende vejo no telhado um soldado com a arma apontada para mim falando em inglês:

“Você não pode fotografar aqui!”

Guardei a máquina. Ele falou algo em hebraico, ignorei e continuamos ali. Ele entrou e saiu diversas vezes da cabine até a chegada de Amer. Seguimos nosso caminho, agora já na área controlada pela Autoridade Palestina.

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“Você não pode fotografar aqui!”

Quando passávamos por um trecho para subir uma escadas até a casa de Hashem* , cruzamos com um grupo de mais ou menos 15 adolescentes judaicos, moradores de Kiryat Arba. Amer virou a cara para a parede. Eu perguntei.

“Você quer voltar? Eles vão fazer alguma coisa?”

“Não. Vamos deixá-los passar. Eles são jovens. Infelizmente são os mais hostis. Costumam cuspir, xingar.”

Ficamos ali até que todos passassem. Os dois últimos tinham cada um uma metralhadora nas costas. Nada fizeram conosco.

Al-Khalil (Hebron) é basicamente isso. Uma tensão constante.

*https://sociedadedividida.com/2016/01/11/hashem/

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