De volta aos anos 90 (ou O Maracanã ainda vive)

Dia 2

Andando por Belgrado me deparava a cada cinco minutos com uma cartaz de rua que continha os escudos do Estrela Vermelha e do Spartak Moscou. Sem entender muito bem que jogo seria aquele, já que os dois times estão fora de competições europeias, fiquei mais na dúvida quando mais tarde vi um novo anúncio com a data do jogo: 25 de março, 18h, Estádio Marakana.

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Cartazes com o anúncio do jogo (Raphael Lima)

Fui pesquisar e descobri se tratar de um amistoso entre o mais conhecido time sérvio e seu “primo” russo. Em seu site, o Estrela Vermelha exaltava a partida:

“Delije e Fratrija tradicionalmente cultivaram excelentes relações. O povo sérvio e russo, durante séculos aliados, amigos e sempre lá para quando o outros precisasse. O jogo de amanhã será mais uma demonstração de uma sólida, estável e sincera relação entre as duas nações e os dois clubes fãs”, diz o comunicado.

E realmente foi assim ao longo da história, com exceção ao período em Tito rompeu com Stálin, logo após a Segunda Guerra. Mas o relacionamento foi retomado logo que Kruschev substituiu o ex-líder soviético.

Até hoje é assim. A Rússia, por exemplo, não reconhece a independência de Kosovo, região separatista da Sérvia que se declarou independente em 2008. E o país de Putin também se manifesta contra a expansão da Otan na região. De tempos pra cá, a Rússia passou a desconfiar que a Otan, na realidade, buscava um enfraquecimento do país em uma região na qual havia desempenhado um papel de protagonismo e liderança. Isso fica claro quando voltamos aos discursos de Bill Clinton e Al Gore, que na década de 90 afirmaram que  a “questão não era se a Otan seria expandida, mas quando e como seria expandida” (Clinton) e que  “a segurança dos Estados que se encontram entre a Europa Ocidental e a Rússia afeta a segurança da América” (Gore).

Deixando a geopolítica de lado, voltemos ao futebol. Para chegar ao estádio, que foi apelidado de Marakana em homenagem ao Maracanã, poucas estaçãoes da Slavia Square (a do post de ontem) até lá. Sem ingresso, fui até a entrada perguntar onde comprá-los (da rua se vê o campo. Sempre gostei de estádios assim, onde é preciso descer, não subir9. Ninguém falava inglês. Mas ticket é ticket em qualquer lugar e o guardinha entendeu. Ele e um senhor que estava atrás de mim.

“Ticket? Četiri stotine”, disse pra mim, como ingresso na mão.

Como eu não entendo nem 2% de sérvio, só olhei pro guarda como quem diz: “E aí, dá pra confiar?”

Ele fez que sim, pegou o ingresso e puxou uma nota de 200 dinars da carteira e fez um dois.

Puxei 400 do bolso, cerca de oito reais, e em vinte segundos estava dentro do estádio. E depois de uns 20 anos, revivi as (muitas) experiências que tive no Maracanã (oficial) nos anos 90 e início dos anos 2000. Morteiro, sinalizador, torcida cantando o jogo todo e bandeirão. E um incrível número de bandeiras sérvio-russas, distribuídas para a torcida.

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Torcida no Marakana (Raphael Lima)

Foi bom perceber que é, sim, possível fazer um espetáculo sem precisar se sujeitar aos moldes da Fifa. Perceber que o padrão Fifa que ajudou a quebrar o Maracanã no Rio não chegou aqui ao leste europeu. E que a paixão pelo futebol nem sempre se faz com orçamentos milionários. Pelo menos em Belgrado, o futebol ainda respira.

Já ia me esquecendo: Estrela Vermelha 2 x 1 Spartak Moscou. De virada.

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