Bojan, o homem que não pensa no futuro

Bojan Nakalamic viveu em cinco países sem sair de casa. Além de lembranças ruins, as guerras nos anos 90 entre as ex-repúblicas iugoslavas criaram crises de identidade.

“Eu nasci na República Socialista Federal da Iugoslávia. Depois vivi na República Federal da Iugoslávia, depois em Sérvia e Montenegro, na Sérvia, e agora no Kosovo. Até agora. Nunca se sabe”, disse.

Nakalamic gostava de futebol. Mas a vida fez de tudo para desanimá-lo.

“Se for para escolher algum, escolho o Estrela Vermelha. Ele (o amigo na mesa de trás) ainda perde tempo com isso”.

“Petkovic!”, disse o homem, se referindo ao fato de eu ser brasileiro.

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Bojan Nakalamic em seu bar (Raphael Lima de Oliveira)

“Ele fez mais sucesso no rival do meu time, mas é bem lembrado por onde passou”, eu falei.

O bar onde conversamos é pequeno. Tão pequeno quanto a cidade, Velika Hoca (pronuncia-se Rotcha). Mas lá dentro não cabe a importância do vilarejo na circunstância política da região.

Velika Hoca é um enclave sérvio dentro Kosovo. Cercado por albaneses (maioria da população kosovar), eles lá usam a escrita em cirílico (alfabeto usado na sérvia), fazem negócios em dinar sérvio e são cristãos ortodoxos. Sua população hoje é menos da metade da de antes da guerra, que afetou a região em 1999. Pouco mais de 700 pessoas vivem lá.

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Vista de Velika Hoca (Raphael Lima de Oliveira)

“Hoje o que temos aqui não é vida. É sobrevivência.”, lamentou Nakalamic. “Planejamos para hoje, no máximo amanhã. Nunca para frente. Mas sou orgulhoso da minha cidade. Vivi na Sérvia por cinco meses após a guerra. Mas aquilo também não era vida”. E completou: “Somos muito confusos. Sérvios e albaneses. E compartilhamos do mesmo problema: a economia.”

Dono de um pequeno bar, o comerciante já foi um dos líderes do partido radical na região:

“Meu nome ainda está lá, mas me envolvo pouco”.

Seu candidato, Vojislav Šešelj, terminou em quinto lugar, com quase 5%. Aleksandar Vučić, do Partido Progressista, antigamente ligado a Šešelj, venceu no primeiro turno. E sua eleição causou uma onda de protestos no país.

“Isso é uma palhaçada. Todo mundo que está protestando teve direito ao voto. Se a diferença fosse pequena, ok protestarem. Mas ele venceu com quase 55% contra 16% do segundo colocado”, criticou.

Nakalamic segue a vida com calma. Mas não consegue garantir que o futuro será tranquilo.

“Hoje a guerra acabou. Mas quem sabe? Somos os bálcãs, podemos esperar qualquer coisa. Lembra do Velho Oeste americano? Ele existe aqui até hoje”.
Perguntado sobre o que deseja para seus filhos, ele é direto:
“Espero que eles continuem lutando. A vida é uma luta”.
Ele me oferece uma coca-cola e recusa o pagamento. Prometo-lhe então um livro do projeto.
“Vou escrever meu endereço. Mas não sei o código postal. Nem pra isso eu sei se vivo no Kosovo ou na Sérvia”. Ele ri.
(Parte da Sérvia, o Kosovo tem maioria albanesa e declarou unilateralmente a independência em 2008).

 

 

 

 

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