‘Enver Hoxa era um ditador que faz Tito parecer uma avó’

No meu último dia em Skopje, na Macedônia, entreguei logo cedo a chave do quarto e, enquanto esperava para ir até a estação, conversei com um hóspede do apartamento que também fazia hora. Ele tinha um inglês com sotaque britânico e me perguntou de onde eu vinha. Logo em seguida fez cara de espanto e quis saber o que levava um brasileiro para a Macedônia. Contei sobre o projeto e ele questionou se eu visitaria a Albânia. Em seguida disse ser albanês. Afirmei que havia visitado, já que vinha do Kosovo:

“É…Kosovo não é Albânia, mas é muito daquilo que a Albânia tem na essência: problemas. No fundo, é…podemos chamar de Albânia”.

Disse que o que não faltavam eram referências ao vizinho.

“A Albânia é como uma pátria-mãe do Kosovo”.

Perguntei então o que ele achava do não reconhecimento por parte da Sérvia.

“Acho que é uma questão difícil. Nós temos gente lá, eles têm história”.

A conversa seguiu e questionei o que ele achava do fim do comunismo na região.

“O regime foi um desastre na Albânia. Quem dera tivéssemos um Tito. Enver Hoxa era um ditador que faz Tito parecer uma avó. Mas a Albânia, ainda assim, conseguiu piorar depois disso. O ano de 1997 foi caótico, por exemplo.”

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Muro de Skopje (Raphael Lima)

A Albânia passou por um período de anarquia em 1997, quando um conflito civil tomou conta do país e o governo perdeu totalmente o controle da população.

O hóspede (vou chamá-lo assim pios ele preferiu não se identificar por conta da história a seguir) contou então sobre a relação de seu país com a Macedônia.

“Tudo envolve corrupção. Os dois países sofrem com isso. E a questão entre os dois é muito mais sobre o domínio do poder em determinados lugares que qualquer outra coisa. Você teve problemas para cruzar a fronteira?”

Respondi que o ônibus passou por problemas, mas comigo nada havia acontecido.

“Eu vim ontem de Pristina. Moro em Londres mas viajo muito para cá a trabalho. Demorei quatro horas na fronteira e só saí após pagar 100 euros de propina para os guardas, porque não aguentava mais.”

Ele precisou sair. Perguntei seu nome, mas ele pediu que não o identificasse, já que fazia aquele caminho inúmeras vezes por ano.

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