Último reduto da URSS, Transnístria é um dos países que ‘não existem’

“As tropas estrangeiras no território da Moldávia violam a Constituição do nosso estado, ou seja, o princípio da neutralidade.”

A fala de Andrian Candu, porta-voz do Parlamento da Moldávia, é clara: o exército russo não é bem-vindo em seu país. Mas há quem diga que a pequena faixa de terra, que vai de norte a sul da fronteira moldava com a Ucrânia, na verdade não é Moldávia, mas Pridnestrovskaya Moldavskaya Respublika, em russo, ou República Moldávia Transdniestriana.

A região, que ainda ostenta estátuas e bustos de Lenin, além de símbolos comunistas por suas ruas, é um dos últimos redutos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) no mundo. Antes mesmo da Moldávia, antiga república sob o domínio de Moscou, a Transnístria já havia declarado independência, sem mesmo que a URSS tivesse acabado, já prevendo a separação dos moldavos.

Língua russa, moeda própria e capital. A Transnínstria é um país que não existe. Após a guerra na década de 90, tropas russas invadiram a região para acabar com o conflito. Atualmente, o território é ocupado por homens do exército de Putin, 25% em missão de paz. E essa mesma Rússia que garante a existência do país, não o reconhece.

“Se ainda não convencemos nossos parceiros, isso não significa que não vamos convencê-los mais tarde. Este trabalho está sendo feito, eu lhe asseguro. Você sabe que, desde 2006, a Pridnestrovie tem buscado estrategicamente a integração com a Rússia, inclusive no nível legislativo, estamos envolvidos no processo de harmonização”, disse Vitaly Ignatiev, ministro das relações exteriores do país reconhecido por quase ninguém. Aliás, apenas três nações tratam a Transnístria como um estado soberano: República do Nagorno-Karabakh, Ossétia do Sul e a Abecásia, ou seja, basicamente uma lista de repúblicas que não existem para o resto do mundo.

Pavel Filip, primeiro-ministro moldavo, levou a situação do país à 72ª Assembleia da ONU, em setembro deste ano:

“Gostaria de invocar a Declaração do Parlamento da Moldávia sobre a retirada das forças armadas russas do nosso país em 21 de julho de 2017, convidando a Federação Russa a retomar e concluir o processo de retirada de suas tropas e munições do território da República da Moldávia”. Ele ainda completou: “Apelo a todas as delegações dos Estados-membros da ONU para que apoiem este pedido legítimo, que corresponde plenamente aos princípios da Carta das Nações Unidas e representa um interesse fundamental da nossa República.”

O chefe do Parlamento moldavo, Andrian Candu, que falou com o Sociedade Dividida, ressaltou a fala do primeiro-ministro:

“A decisão do governo é apoiada politicamente pelo Parlamento da Moldávia, que além disso, como um Estado soberano, tem o direito de escolher se as tropas estrangeiras podem ou não estar em seu território. A atual presença russa não tem nosso consentimento e não está promovendo a solução do conflito. Não houve movimento na retirada russa desde o início de 2004 (quando o país interrompeu unilateralmente a evacuação de suas tropas). O reinício da retirada russa demonstraria a Tiraspol (capital da Transnístria) que o status quo (de uma Moldávia dividida) não é permanente”, disse.

A independência da Transnístria veio acompanhada de uma guerra civil. Estima-se que centenas de pessoas morreram, entre combatentes e civis.

Em abril de 1992, a Transnistria foi visitada pelo vice-presidente russo, Nikolay Rutskoy, que encorajou os transnisrianos a lutar contra a Moldávia e assegurou-lhes o apoio militar, financeiro e moral russo. Menos de dois meses depois, o tenente-general Alexander Lebed foi nomeado comandante do ROG (ex-exército russo).

“A República Autoproclamada na Transnístria (como refere-se Candu) permaneceu de fato ocupada pelo ex-exército soviético (agora russo), cujo comando era simpatizante dos separatistas, estacionados na Transnístria e que totalizavam cerca de 15 mil soldados profissionais e possuíam arsenais impressionantes, com todo tipo de armamento. Por conta disto, o governo da Moldávia teve poucas chances de resolver o conflito com a força de Tiraspol. A Guarda Republicana foi reforçada com cerca de 6.000 mercenários e voluntários de toda a Rússia, muitos dos quais vieram depois de uma série de recursos feitos na mídia russa para apoiar os irmãos eslavos na Transnístria contra a ‘agressão moldo-romena’, uma cópia semelhante ao que vem acontecendo na Ucrânia – em 2014, com a invasão russa na Crimeia e em 2015, com a entrada em Dombas e Luhansk, todos distritos ucranianos. Após centenas de mortes de ambos os lados e dezenas de milhares de refugiados que fugiram da área dos conflitos na direção ocidental, um acordo de cessar-fogo foi assinado em 21 de julho de 1992 pelos presidentes da Federação Russa (Boris Yeltsin) e da Moldávia (Mircea Snegur)”, assinalou Candu.

O porta-voz do Parlamento também explanou as consequências da atual situação no país no que diz respeito à política externa:

“O separatismo na Moldávia cria muitos outros obstáculos, não só no que diz respeito à entrada na União Europeia. Por exemplo, para as elites que enfrentariam um status pouco claro em uma ‘Moldávia reunida’, onde a instabilidade política e econômica é padrão, as autoridades não conseguem garantir o desenvolvimento e prosperar a estabilidade. O caso de Chipre, por exemplo, que também é dividido, não é um modelo para a Moldávia, e os Estados membros da UE não aceitarão um segundo cenário, pois o primeiro não é uma história de sucesso. Assim, a Moldávia deve ser reunificada antes para se juntar à União Européia e criar prosperidade para seus cidadãos de ambos os bancos do rio Nistru (em russo, Dnestr, que divide as duas regiões).”

Questionado sobre a entrada na Aliança do Atlântico (Otan, criada em 1949 para conter o expansionismo soviético, proibir o renascimento do militarismo nacionalista na Europa através de uma forte presença norte-americana no continente e incentivar a integração política europeia), Candu explica como a lei do país impede a adesão:

“Esperando que algum compromisso possa obter apoio russo no restabelecimento da unidade nacional, a liderança da Moldávia concordou em deixar de procurar a adesão à Otan, introduzindo em 1994 na Constituição da Moldávia o Artigo 11, que descreve uma ‘neutralidade permanente’ ou qualquer relação especial com a aliança. Chisinau também revisou seu conceito de Moldávia como um estado unitário ao mesmo tempo que recusava a ideia de confederação ou federalização com a Transnístria, conforme proposto por Moscou. A contra-proposta moldava baseou-se na transformação da Moldávia em um estado unitário e ampla autonomia para a região separatista da Transnístria. A Moldávia é então constitucionalmente neutra, mas procura aproximar-se das normas e instituições euro-atlânticas. As relações com a Otan começaram quando a Moldávia se juntou ao Conselho de Cooperação do Atlântico Norte (1992) e ao programa Parceria para a Paz (1994). O programa de cooperação do país com a Otan está estabelecido em um Plano de Ação de Parceria Individual , que é acordado e aprovado de dois em dois anos. Além disso, a Moldávia aceitou abrir um gabinete de ‘ligação’ com a Otan em Chisinau desde de agosto de 2017.”

Candu tem expectativas otimistas sobre o futuro das relações internas e externas do país com a Rússia e a Transnístria:

“Acredito que a Rússia retirará as tropas militares da Moldávia e, aí sim, poderemos reconstruir um só país, (re)unido, com perspectiva para ser membro da União Europeia.”

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ROTINA EM TIRASPOL

Pelas ruas de Tiraspol, capital da Transnístria, o clima é de cidade do interior. O caminho de Chisinau (fala-se Quixinau), capital moldava, até lá é curto, mais ou menos 70 quilômetros. No meio da estrada, uma parada em uma fronteira simbólica, mas que está ali. O guarda pergunta em russo o tempo de estadia. Parece ser a única preocupação. No visto, concedido na hora, sem cobrança – diferentemente da Moldávia, que cobra pela entrada de brasileiros, por exemplo, algo em torno de 200 reais -, a hora de saída: dia 3 de novembro, 9h36 da manhã, ou seja, exatamente 24 horas após a entrada.

Tiraspol não é atraente. É como ser deixado na URSS da década de 70, 80. Apesar das animosidades entre as duas partes do Rio Dnister, o modus vivendi segue sem problemas. Ruas limpas, um ou outro comércio e uma certa proibição para fotografar. O silêncio impede qualquer movimento mais brusco. É possível ouvir a conversa na outra esquina, algo impensável em uma cidade um pouco maior, como Chisinau, por exemplo. Os turistas são escassos. São apenas três albergues na cidade e pouquíssimos hotéis.

Notícias ao Minuto
 Parede de um dos albergues (Raphael Lima)

Uma espécie de museu a céu aberto do comunismo, o ‘país que não é’ parece não se preocupar com o imbróglio político que o envolve. E nem mesmo com sua própria história. A visita a Transnístria aconteceu na semana da celebração dos 100 anos da Revolução de Outubro, a Bolchevique, que colocou os comunistas no poder. Apesar da importante data, nenhuma referência ao levante liderado por Lenin era visto na cidade.

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